sexta-feira, 12 de setembro de 2008

CHEIRO DE PÓLVORA 4 - EL PAÍS

DO JORNAL ESPANHOL EL PAÍS
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Chávez ataca o rei e avisa que vai revisar relações com a Espanha

"Vou ficar de olho nas empresas espanholas para ver o que estão fazendo aqui", diz o presidente venezuelano

Francisco Peregil
Enviado especial a Caracas

Não acontece nada. Hugo Chávez anunciou na quarta-feira que vai revisar as relações com a Espanha e ameaçou as empresas espanholas em uma entrevista pela televisão. Ele disse: "Vão ter de começar a prestar mais contas e vou ficar de olho nelas para ver o que estão fazendo aqui, todas as empresas espanholas que estejam na Venezuela". Mas os empresários espanhóis que falaram com este jornal sob a condição do anonimato acreditam que tudo o que o presidente venezuelano declarou deve ser analisado sob a idéia de que em 2 de dezembro a Venezuela realizará um referendo sobre uma reforma constitucional que permitiria a Chávez governar tantas vezes quantas for eleito pela população. Assim, Chávez parece ter encontrado um bom filão eleitoral depois do incidente da Cúpula Ibero-Americana com o presidente (primeiro-ministro) da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero, e o rei Juan Carlos.

"Com um presidente que sai em defesa de um fascista e atropela a verdade e um rei que pretende atropelar a dignidade de um povo é difícil ter boas relações", declarou Chávez na entrevista à televisão local TVO. "O triste disso é que Zapatero tenha saído em defesa do fascista Aznar, e com essa desculpa absurda de que foi um presidente eleito. Então não se pode criticar Hitler porque foi eleito pelo povo alemão. Isso significa que não se pode criticar ninguém? Significa que Aznar tem uma licença para vir à América Latina dizer que na Venezuela há uma ditadura, desrespeitando os venezuelanos?", afirmou Chávez.BATE-BOCA COM O REI

"Agora temos um governo que se alinha com Aznar, que apoiou um golpe aqui", continuou o presidente da Venezuela. Depois voltou a perguntar se o rei da Espanha, "que foi nomeado por Francisco Franco", estava a par do golpe que o derrubou durante 48 horas em 2002. "O embaixador espanhol pôde ir a Miraflores [palácio presidencial da Venezuela] apoiar o governo de transição por conta própria? Impossível. Então o rei devia estar a par disso e agora sai em defesa do cachorro do império, o fascista Aznar. E Zapatero rapidamente se alinha com eles. Então eu preciso revisar tudo isso: um governo que se alinha com um fascista".

Na noite anterior a essa entrevista, Chávez indicou que espera as "desculpas" do rei para evitar que o incidente da Cúpula Ibero-Americana em Santiago do Chile piore as relações entre os dois países. Chávez disse que o rei "perdeu as estribeiras" quando lhe pediu que se calasse. "O rei perdeu as estribeiras e o mínimo que deveria fazer é pedir desculpas e dizer ao mundo a verdade", disse Chávez no canal Promar na cidade de Barquisimeto, a 351 km a sudoeste de Caracas.
E acrescentou: "O rei explodiu, mas não ouvi o que ele disse e creio que o rei teve sorte, porque se o escutasse o deixaria sentado em seu lugar. Não sei o que lhe teria dito, mas quem ficou muito mal foi ele".

Muitos empresários espanhóis desligaram o telefone. A embaixada em Caracas também não se pronuncia. Todos querem que se fale o mínimo possível, que as águas voltem a se acalmar. "Não se pode calibrar o que ele quis dizer, se é que quis dizer algo, é claro. Como não consegue se calar, continuará falando", indicou um empresário espanhol. "Chávez provavelmente pensa que isso pode lhe dar votos. Esta semana fará uma viagem. Vamos ver se isso serve para que deixe de falar da Espanha."

"É preciso encontrar uma solução para tudo isso", disse na quarta-feira em Caracas o senador do Partido Socialista Espanhol e presidente da Associação de Empresários Galegos da Venezuela, Cándido Rodríguez. Rodríguez tem 61 anos, dos quais viveu os últimos 43 na Venezuela. "Neste país há cerca de 160 mil espanhóis registrados no consulado. Mas ao todo devemos ser 300 mil. Depois da Argentina e da França, a Venezuela é o país que tem mais espanhóis. A maioria chegou entre 1945 e 1955. Tem filhos e netos aqui. E não há nenhum sentimento antiespanhol. Não há uma palavra pejorativa para denominar os espanhóis. Por enquanto não há nada de xenofobia, mas temos de agir todos com muita calma." "Os discursos de Chávez são uma coisa e seus atos, outra", indica um empresário espanhol.

Em Madri, antes destas últimas declarações do presidente venezuelano, o líder do Partido Popular, Mariano Rajoy, aumentou a intensidade de seus ataques nesse assunto: "Quem semeia vento colhe tempestade. O governo abaixa a cabeça diante de uma agressão contra o chefe de Estado. É a imagem viva da impotência. Quem defende nossa dignidade? A decisão que se tomou é a do apaziguamento, a de olhar para o outro lado, não querer ver. Isso se traduz em uma perda de respeito e influência da Espanha."

Em contraste, tanto a Confederação Espanhola de Organizações Empresariais (CEOE) como o Conselho Superior de Câmaras de Comércio se recusaram a responder às afirmações de Chávez. Não querem entrar em uma escalada de declarações. Gerardo Díaz Ferrán, presidente da CEOE, pediu na cúpula do Chile "respeito à propriedade privada como pedra angular do crescimento econômico e social, aplicando normas jurídicas claras e estáveis que ofereçam segurança ao empresário", informa Íñigo de Barrón.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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