sexta-feira, 12 de setembro de 2008

CIDADES GLOBAIS

DO NY TIMES

Tóquio planeja se tornar a nova capital financeira global

Martin Fackler
Em Tóquio

Anos atrás, o Japão ganhou proeminência econômica desmontando produtos americanos como carros e aparelhos de televisão para aprender como fazê-los melhor.

Agora, à medida que perde força o foco do Japão na manufatura, planejadores econômicos estão tentando aplicar engenharia reversa em outra fonte de força econômica dos Estados Unidos: Wall Street.

A Agência de Serviços Financeiros do Japão, que supervisiona os setores bancário e de valores mobiliários do país, está trabalhando em um plano que será apresentado antes do final do ano, visando transformar Tóquio em uma capital financeira global à altura de Nova York e Londres. Importantes autoridades japonesas visitaram Wall Street e a City, o distrito financeiro de Londres, em busca dos segredos de sua vitalidade.


Tóquio quer criar distrito financeiro para atrair investimento estrangeiro e profissionais

Mas até o momento, os esboços iniciais sugerem que os especialistas econômicos do Japão estão tendo dificuldade para descobrir o segredo do sucesso dos centros financeiros ocidentais.

O governo japonês também está buscando formas de manter Tóquio como capital financeira da Ásia e à frente de rivais como Hong Kong, Cingapura e até mesmo Mumbai, a antiga Bombaim. As autoridades daqui esperam que o plano atraia mais investidores estrangeiros e ajude a reviver o mercado de ações do país, que apresenta desempenho inferior ao de outros grandes mercados, mesmo depois da crise dos títulos hipotecários de risco ter causado prejuízos a instituições financeiras americanas e européias.

O plano surge no momento em que a economia de US$ 4,5 trilhões do Japão está em recuperação. No mais recente trimestre, ela cresceu em um ritmo anual sólido de 2,6%.

Mas por muitos anos, os japoneses, em vez de investirem mais internamente, têm colocado seu dinheiro no exterior devido ao baixo retorno das ações e títulos domésticos. Parte do fluxo de dinheiro para o exterior parece estar diminuindo, como está refletido na valorização do iene japonês. Isto dá peso às esperanças japonesas de criação de um distrito financeiro em Tóquio que seja capaz de atrair investimento estrangeiro e profissionais ocidentais.

Mas algumas das propostas da Agência de Serviços Financeiros parecem mais itens de um portfólio de corretor imobiliário do que um manifesto para maior predominância financeira. Há propostas para construção de apartamentos mais espaçosos, escritórios resistentes a terremoto e clubes esportivos mais luxuosos.

Uma idéia é acrescentar restaurantes que sirvam pratos ocidentais como espaguete e que permaneçam abertos depois da meia-noite para acomodar o exaustivo horário de trabalho do setor financeiro. Os esboços do plano também pedem pela adição de escolas e hospitais de língua inglesa, mais placas de rua em inglês e uma ligação de trem mais rápida para Narita, o principal aeroporto internacional, uma viagem de 90 minutos até o centro da cidade.

Menos evidentes são os tipos de mudanças que poderiam de fato atrair empresas e profissionais estrangeiros: impostos mais baixos, uma maior fonte de talentos que fale inglês e maior transparência e moderação na supervisão por parte da própria agência.

"O plano da agência não resolve as questões centrais", disse Naoko Nemoto, uma analista do setor bancário da Standard & Poor's daqui, que fez parte de um comitê da agência que fez algumas recomendações iniciais ao plano. "Tóquio perderá se não fizer mudanças maiores."

Os críticos dizem que a falta de medidas mais substanciais reflete a resistência burocrática por parte da Agência de Serviços Financeiros, que teme perder seu poder. Um obstáculo ainda maior, muitos dizem, é a aversão profunda no Japão às finanças, que são consideradas aqui um jogo sujo.

Isto faz muitos políticos e economistas relutarem em promover o setor financeiro em vez do manufatureiro, que os japoneses celebram como trabalho honesto resultante do suor.

Muitos empresários e economistas japoneses concordam que tal postura deve mudar caso Tóquio queira competir em um campo lotado de centros financeiros -incluindo a ascensão de Hong Kong como financiadora e mercado alternativo para a China, que cresce rapidamente.

Cingapura já desenrolou o tapete vermelho para os investidores estrangeiros, com impostos mais baixos e regulação mais frugal. Candidatos como Xangai, Mumbai e Dubai, no Golfo Pérsico, despontaram como centros de investimento, incluindo a negociação dos petrodólares do Oriente Médio.

Para conseguir um retorno, Tóquio deve reverter mais de uma década de declínio. A Bolsa de Valores de Tóquio caiu da posição de maior mercado de ações do mundo em 1990 em capitalização para a segunda posição, atrás da Bolsa de Valores de Nova York. De lá para cá, o valor de todas as ações negociadas na bolsa de Tóquio cresceu menos de 60%, para cerca de US$ 4,6 trilhões no final do ano passado.

Em comparação, o valor da Bolsa de Nova York aumentou cinco vezes. A principal bolsa de Hong Kong valorizou em um fator de 21, apesar de ainda ser metade do tamanho de Tóquio. Em Londres, que já era um centro global no mercado de moeda, a principal bolsa de valores cresceu quatro vezes desde 1990 e poderá em breve ultrapassar Tóquio.

Nos últimos anos, a Bolsa de Valores de Tóquio se tornou ainda menos atrativa para as empresas estrangeiras devido aos altos custos e barreiras de língua. Atualmente há 26 empresas estrangeiras listadas na bolsa, em comparação a 127 em 1991, disse o mercado.

E apesar do Japão permanecer a maior e mais avançada economia da Ásia, muitos aqui estão alarmados com a ascensão da China como potência industrial. Os defensores do plano da capital financeira esperam que isto ajude o Japão a passar de um país produtor de bens para uma potência mais soft como os Estados Unidos, que criam, projetam e financiam bens e serviços enquanto realizam menos manufatura.

"Os Estados Unidos e a Inglaterra estiveram ambos economicamente doentes por algum tempo, mas tiveram sucesso em encontrar novo crescimento em seus setores financeiros", disse Yuji Yamamoto, um ex-ministro dos serviços financeiros que é o principal arquiteto do plano. "Nós precisamos reproduzir tal sucesso."

Yamamoto visitou Nova York, Washington e Londres em janeiro, quando ainda era ministro. Durante a viagem, ele perguntou a autoridades como Ben S. Bernanke, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), e Christopher Cox, o presidente da Comissão de Valores Mobiliários, o que estava errado com Tóquio. Eles lhe disseram que se o Japão não abrisse seus mercados, "ele seria apenas um pequeno país asiático", disse.

Mas o momento mais memorável, segundo ele, foi caminhar por Wall Street e ver os escritórios de empresas financeiras de todo o mundo. Londres também causou uma profunda impressão porque muitas das empresas eram de regiões em desenvolvimento, como Índia, América do Sul e Oriente Médio. Isto contrastava com Tóquio, onde a grande maioria das empresas é japonesa.

"Foi aí que percebi que o segredo do sucesso de Wall Street e da City era a capacidade delas de atrair dinheiro e talento de todas as partes do mundo", disse Yamamoto.

Ele decidiu que a forma de copiar tal sucesso era transformar o distrito financeiro de Tóquio, Kabutocho, em um ambiente mais internacional onde banqueiros e investidores estrangeiros pudessem se sentir à vontade para viver e fazer negócios.

A maioria dos forasteiros concorda que Tóquio tem enorme potencial como eixo para empresas estrangeiras, não apenas devido à riqueza do Japão, mas também porque a cidade é considerada como uma das mais seguras e limpas na Ásia. Mas há preocupações de que o plano apenas criará um gueto para estrangeiros abastados.

As propostas também fracassam em atender as queixas dos investidores e banqueiros estrangeiros de altos impostos e regulação onerosa.

O maior problema é a própria Agência de Serviços Financeiros, que é amplamente criticada como tendo enorme liberdade para estabelecer regras e aplicá-las. Os burocratas japoneses há muito exercem poderes nebulosos sobre o setor privado. Muitos investidores e profissionais financeiros estrangeiros apontam para o fechamento da unidade japonesa de banco privado do Citigroup pela agência, há três anos, como um exemplo de mão pesada contra empresas estrangeiras.

Tóquio "é uma cidade maravilhosa para se viver", disse Robert Feldman, um economista do escritório de Tóquio da Morgan Stanley. "Mas a menos que mude seu ambiente regulatório, ninguém virá para cá."

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